Tuesday, December 20, 2005

Peter Jackson - The Return of the King.


"E a Fera olhou na face da Bela...e a Bela estava em suas mãos; e, a partir desse dia, a Fera estava condenada à morte."







Você sabe o que é se apaixonar por um filme aos 9 anos de idade e, a partir de então, dizer: um dia eu serei diretor e farei esse filme novamente? Peter Jackson sabe; e não só sabe, como realizou um dos seus maiores sonhos de infância, regravrar o clássico de 1933, King Kong.
A história do gorila gigante que se apaixona pela mocinha volta às telas. Carl Denham (Jack Black), procurando uma atriz perfeita para seu novo filme, encontra Ann Darrow (Naomi Watts) e, junto com o roteirista Jack Driscoll (Adrien Brody) e com um mapa encontrado por Carl, vão parar na Ilha da Caveira, local até então inexplorado, onde há a lenda de que habita uma grande fera.
Com um orçamento de R$200 milhões de dólares e todo o prestígio de que precisava, Jackson mostrou porque concorre ao prêmio de melhor diretor do ano. Procurando ser fiel à obra original (ao contrário da produção feita em 1976, atualizada ao contexto da época), o filme faz valer cada centavo investido; sejam as 3 horas de duração, sejam os efeitos especiais, sejam as lutas de Kong com Tiranossauros, sejam as cenas de Ann Darrow com o gorila.
Nada, porém, parece comparável à espressão de King Kong. Ele é capaz de dizer, sem uma palavra sequer, mais do que todos os atores disseram durante 3 horas; a raiva, o medo, a coragem, a determinação e, principalmente, o amor. Tudo isso através de seu corpo, seus gestos, mas, primordialmente, seu olhar. Andy Serkis, mais uma vez, merece nossos aplausos. Depois de emprestar seus movimentos e voz ao personagem Gollum, de O Senhor do Anéis, agora, é responsável pelo toque humano dado a Kong.
Aliás, há controvérsias. Se ser humano é ser persistente, é lutar em prol daqueles que amamos, é dar a vida pelo outro instintivamente, ninguém no filme é mais humano que Kong, nem mesmo o roteirista famoso Jack Driscoll, que se apaixona por Ann. Ele precisou ouvir suas próprias palavras interpertadas no palco (através de uma peça que ele escreve à Ann) para, só então, perceber que deveria lutar pelo seu amor.
Aventura, suspense, magia digital, romance. Peter Jackson aliou isso a uma trilha sonora digna e, com um toque de gênio, soube dosar cada detalhe, sem pecar para o excesso de cenas de ação ou excesso de melodrama.
King Kong fará derreter os mais sentimentais, alucinar os aventureiros, deslumbrar os futuristas e exaltar os críticos. Se não pelas cenas na Ilha da Caverna, local onde o ambicioso Carl Denham leva todos para rodar seu filme; se não pelas cenas de Kong em Nova York; se não pelo gorila no Empire State, ainda lutando por Ann; se, por nada disso, o mais estarrecido espectador se satisfizer, uma coisa o fará. A valsa de Kong e Ann no gelo é, simplesmente, encantadora. The Beauty and the Beast, como nos contos de fadas. Com direito a toda a magia que se espera. A magia em que A Fera, a Besta, o Monstro, O Gorila, irracional e instintivamente, ensina ao homem que o amor 'tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta'.

Monday, October 31, 2005

Freud ainda explica


"Quanto mais prontamente a consciência registra os choques, menos provavelmente eles terão um efeito traumático" [Freud]



Com a direção de Fernando Meirelles, produção de Walter Salles e roteiro de Bráulio Mantovani, baseado no romance de Paulo Lins, o filme “Cidade de Deus” mostra, da forma mais “tarantianamente” possível, o que pode existir de melhor no cinema brasileiro. Isso valeu indicações ao Oscar para a direção, fotografia, melhor roteiro adaptado e montagem. Achou pouco?
Da década de 80 para cá, de “pornochanchada” a célebres diretores como Glauber Rocha, Eduardo Coutinho, Arnaldo Jabor, o cinema brasileiro conheceu uma época áurea, até então abafada pela falta de investimento governamental. Desde então, uma série de estudos sobre a verdadeira ‘intenção’ do cinema se intensificaram. Entretenimento, melodrama, cinema de autor, indústria do cinema são apenas alguns termos recorrentes entre os cinéfilos (aqui vale a ausência da vírgula para restrição) que procuram encontrar uma causa nobre por trás de cada filme. Eis, então, um dos maiores impasses e o prato cheio da crítica emburrecida para a receptividade do filme “Cidade de Deus” no Brasil.
Se por um lado, encantou as telas norte-americanas e espantou os europeus, principalmente a Inglaterra, por outro, o filme, que centra sua narração na favela chamada de ‘Cidade de Deus’ e mostra de forma crua o dia a dia de diversas pessoas ali, foi tido como ‘promovedor da violência barata’ ou, em termos chulos, pancadaria para vender. Certos ou não, vem a questão: mas não é que vendeu mesmo?
No começo do século passado, Benjamim, um grande estudioso de Freud, aplicou as teorias psicanalíticas em seu estudo sobre cinema. Ele diz, então, que, em uma das análises de Freud, o tema abordado foi a ansiedade, constatando-se que, pessoas que criavam certo tipo de expectativa para determinada situação, sofriam menos suas conseqüências que aqueles que a recebiam de forma inesperada.
Para o cinema, Benjamim disse que o mesmo acontecia. Ele serviria como a ansiedade consciente da população e a prepararia para receber os impactos da ‘vida real’ de uma forma mais amena e menos dolorosa. Não que não estejamos acostumados com violência a todo o momento, em todos os jornais, todos os dias da semana. O que a maioria da população, porém, aparentemente desconhecia (ou fingia não saber), era que existiam vidas, e vidas decentes no meio de todo aquele ‘aglomerado de traficantes’.
Claro que há panos e panos a serem discutidos acerca desse tema e de diversos outros incitados pelo filme; a questão não é essa. A questão é a forma como a população e a mídia brasileira, pelo menos uma parte significativa dessas, viram o filme apenas pelo prisma da violência excessiva. Que briguem com Paulo Lins. A produção do filme apenas captou a história já existente e a adaptou ao cinema. Por que não houve tanto alvoroço na época do lançamento do livro, por exemplo? Mais uma vez, a teoria freudiana de Benjamim se aplica. Cinema é ansiedade consciente. É amaciador de mente. O que não se pode dizer o mesmo, se falarmos de literatura em um país em que a grande maioria da população é analfabeta.
Com cenas rápidas, típicas de vídeo-clip; fotografia impecável; trilha sonora chamativa e condizente com o ritmo frenético do filme e o dedo do mestre Walter Salles e Fernando Meirelles, não podia dar outra. O filme emplacou continente afora, não se limitando às telinhas brasileiras, sendo muito mais aclamado pelo mundo do que no próprio país de origem. Fernando Meirelles ficou tão conhecido, que está, atualmente, dirigindo uma superprodução norte-americana chamada “O Jardineiro Fiel” (The Costant Gardener). Como tudo que é bom é pescado para fora, podemos dizer que os EUA estão com uma verdadeira peixaria, constituída em rios brasileiros e revendida, posteriormente, para o mundo e, por que não, para nós mesmos.
Merecíamos o Oscar? Talvez. Segundo os brasileiros, claro, pelo menos um pra gente. Segundo grande parte da crítica brasileira, com certeza. Segundo outros, nunca. Segundo os europeus, sim. Segundo a Academia, não. Isso é relativo. Sem sombra de dúvidas, analisado isoladamente, o filme é magistral, digno de admiração. O problema é que, quando o velho mestre Clint Eastwood volta às películas com uma obra belíssima como “Sobre Meninos e Lobos” (The Mistic River) ou quando o sabre de luz, que marcou a geração de 70 em diante, vira anel nas mãos do diretor Peter Jackson, em Senhor dos Anéis (The Lord of the Ring), fica difícil para qualquer filme concorrer.

Friday, October 07, 2005

Entrevista com o escritor: Santiago Nazarian


Com apenas 28 anos de idade, o escritor Santiago Nazarian já possui, além de contos, 3 romances publicados, com o último sendo adaptado para o cinema. Paulista, filho da escritora Elisa Nazarian, Santiago fala 5 línguas, tem 2 diplomas acadêmicos, ganhou diversos prêmios e já morou em vários países. Vivendo atualmente em São Paulo, o 'ex-gótico' mantém total interatividade virtual com seus leitores e chega a ser censurado pela crítica por sua imagem, digamos, pop. Eis um dos grandes nomes da nova geração de escritores brasileiros, marcados pelo conteúdo, simpatia e, claro, aparência.






1- Santiago, você tem 2 diplomas, certo? Você nunca chegou a exercer nenhum deles? O fato de ter começado a escrever e a vender tão cedo interferiu no rumo que você decidiu tomar para a sua vida?

Oh, não, eu só tenho um diploma, de torneiro mecânico... Haha, na verdade, só me formei em publicidade. Cheguei a entrar em Letras também, mas nunca me formei, nem cursei propriamente. Mas eu exerci as duas carreiras, sim. Pode-se considerar que exerço letras, não tanto por ser escritor, mas por fazer traduções e já ter dado aula de inglês. Também já trabalhei como redator publicitário por alguns anos. O fato de ter publicado em si não fez tanta diferença na minha vida prática, porque eu sempre preciso procurar outras maneiras de sobreviver. Mas por eu ter tido um certo destaque com literatura, consegui outros trabalhos mais próximos da escrita, como as traduções e resenhas para jornal. Eu ganho algum dinheiro com contos que publico e livros que vendo, mas não é grande coisa, sinceramente.


2- Você já havia pensado em ser escritor? Sua mãe, Elisa Nazarian, pelo fato de já ser escritora, teve alguma influência em você?

Bem, eu comecei a publicar bem antes da minha mãe. Ela publicou seu primeiro livro só este ano, mas ela escreve há muito tempo e tem uma quantidade absurda de livros em sua casa. Isso logicamente me influenciou. Meu pai é artista plástico e a casa da minha mãe era um campo de batalha entre literatura e artes plásticas. A cada ano, minha mãe tirava um quadro do meu pai da parede para dar espaço a mais uma estante de livros.


3- Quais são seus maiores ídolos na literatura? Você se inspira em quais deles?

João Gilberto Noll, Oscar Wilde, Thomas Mann, Kafka e Lygia Fagundes Telles, para dar só alguns. Não me inspiro propriamente em nenhum. Na verdade, a influência de um escritor não vem só dos livros, vem de tudo o que ele gosta, desde um sorvete de pistache até um jogo de Playstation.


4- Como é seu processo criativo? Impulsivo? Ou você prefere cria com o tempo e com calma?

Impulsivo. Inclusive, quando tenho menos tempo para criar é que acabo escrevendo com mais dedicação.


5- Você fala 5 idiomas, certo? Já morou em vários países. Em quê isso contribuiu para a sua formação pessoal e literária? Quais países mais gostou de visitar?

Bem, morar mesmo eu só morei na Inglaterra, duas vezes. Em 94, como estudante, e 2002. Mas já passei um mês em Paris, quarenta dias nos EUA, alguns meses na Alemanha, Escandinávia, Holanda, Bélgica... e Argentina. O país em que senti um clima mais interessante, literário, foi a Finlândia, por isso resolvi aprender finlandês. Já tinha estudado inglês, francês e espanhol também.


6- Dentre seus 3 romances (Olívio, A Morte Sem Nome e Feriado de Mim Mesmo), qual você acha que mais exigiu de você? Por quê?

“A Morte Sem Nome”, com certeza, por razões óbvias. É o mais denso dos três, com o maior número de páginas, levou mais tempo para ser escrito. Mas me proporcionou um enorme prazer. Fiquei um bom tempo contaminado com a “poesia de Lorena”, e de vez em quando ela ainda se manifesta.

7- Como você vê a repercussão da sua entrevista no Programa do Jô? Você acha que ajudou no seu reconhecimento e da sua obra?

Não exatamente no “reconhecimento da minha obra”. Antes do Jô, já havia saído dezenas de matérias e críticas sobre meus livros na imprensa, eu já havia feito algumas entrevistas em programas de TV a cabo, mas eram todos veículos literários. Com o Jô, eu conquistei um novo público. Toda uma petizada começou a me escrever. Garotos de treze anos de Belém, adolescentes góticas, gente que não leria sobre meus livros na Bravo, por exemplo. E eu acho isso legal. De repente essas pessoas gostaram da minha imagem, ou das minhas histórias de vida e acabam comprando o livro. De repente são pessoas que nem costumam ler, mas começam comigo. E é esse o papel que o escritor deve ter, difundir a leitura, por isso acho importante participar desses programas.


8- O que o público pode esperar do seu 4° romance: Mastigando Humanos? O que você acha que o diferencia dos demais?

É um romance mais psicodélico, bem humorado, com uma enorme contestação política e filosófica. Uma contestação meio adolescente até. Tem um humor negro, sarcástico. É bem diferente dos anteriores, mas meus leitores ainda identificarão questões típicas da minha prosa.


9- Você é um escritor que posta freqüentemente no blog, responde os leitores, visita sua comunidade no orkut; como você vê essa interatividade do escritor com o leitor? Você acha proveitoso?

Hum, não muito. Na verdade, isso está se tornando cada vez mais difícil. Sempre tentei levar as coisas numa boa. Não sou um popstar, trabalho o dia inteiro no computador e, se recebo dez emails por dia de leitores, dá para responder numa boa. Mas então você responde uma pessoa e ela começa a escrever sempre, quer te adicionar no Orkut, no MSN, quer te chamar para sair. Isso vai se acumulando, mais e mais pessoas vão aparecendo e a coisa começa a ficar difícil. Claro que tem algumas com quem rola uma identificação natural, que se tornam amigas de fato, mas não é sempre assim. E se você deixa de responder um email essa pessoa começa a cobrar, acha que você está se tornando esnobe. É difícil saber dosar. Há pessoas que se tornam invasivas demais. Eu estou tendo vários problemas desses.

10- Muitos críticos não custumam ver com bons olhos escritores que vão à desfiles (como o São Paulo Fashion Week), que aparecem na mídia, que são simpáticos e bonitos. O que você pensa a respeito dessa imagem e desse esteriótipo que se criou em torno da figura do escritor?

As pessoas dão muito valor a coisas que não têm nada a ver com literatura. Se elas dão valor e compram o livro, porque acham o escritor bonitinho, por exemplo, ótimo, ao menos os fins justificam os meios. Se elas dão valor e desprezam um livro por esse mesmo motivo, pela imagem do escritor, então nada de produtivo se consegue. O que quero dizer é que as pessoas que condenam um escritor pela sua aparência são mais limitadas do que aquelas que compram um livro pela capa.


11- Como está sua vida agora? Com um livro prontíssimo, ainda degustando as vendas de Feriado de Mim Mesmo, curtindo a adaptação do livro para o cinema (é da Eliane Caffé, não é?)...o que mais você faz para, digamos, 'ocupar' seu tempo (afinal, nem só de livros vive um escritor, como você mesmo diz, certo?)? Concluiu a tradução da obra do JT LeRoy?

Sim, eu tenho feito muitas traduções. Terminei a tradução do segundo romance do JT LeRoy e já comecei a traduzir um romance do cineasta Gus Van Sant. Também estou fazendo bastante traduções de filmes. Escrevo de vez em quando para a Folha de São Paulo, lanço alguns contos por aí, como na Bravo e na Revista E. E vou ganhando a vida assim, desses trabalhos.

12- Qual é seu público alvo? A juventude da sua época, a juventude de hoje, os adultos?

Eu não tenho exatamente um “ público alvo”. Sempre que escrevo um livro penso numa única pessoa específica, como uma carta, e normalmente é para essa pessoa que o livro é dedicado. E se escrevo pensando numa pessoa, certamente outras se identificarão.


13- Você já trabalhou para o disk-horóscopo? O que você fazia lá? Você estudou Astrologia?

Sim, eu escrevia horóscopos para uma operadora de celular. Era tudo inventado, nunca estudei astrologia nem acredito. Foi um dos primeiros bicos que arrumei, logo que voltei para São Paulo.

14- Quais são seus planos para o futuro? Continuar publicando, mudar de profissão, de país?

Planejo continuar publicando, claro. Quero viajar mais também, passar alguns meses fora, mas isso depende de grana e de várias outras coisas. E sempre voltarei para o Brasil. Sempre voltarei para São Paulo. Não pretendo nunca sair definitivamente do Brasil. Gosto daqui.

15- Valeu, Santiago! Algum recado extra para dar?

Hum... não.

Thursday, July 28, 2005

A fantástica fábrica de filmes de Burton


'Ao aproximar-se mais da casa, perceberam que era feita de pão e coberta de bolos, enquanto a janela era de açúcar cristalizado. - Finalmente poderemos comer! - exclamou João - Eu comerei um pouco do telhado, Maria, e você pode comer uma parte da janela. - disse, e quebrou um pedaço do telhado para prová-lo. Maria se aproximou da janela e começou a comê-la. Nesse momento, ouviu-se uma voz melosa, que vinha do interior da casa: "- Quem será que está comendo todo o doce da casinha? Irei depressa, correndo, dar-lhe-ei um bom tapinha."'



Muito mais ligada à famosa estória de Hansel e Gretel (versão original de 'João e Maria' aqui no Brasil), a regravação do clássico cult 'A Fantástica Fábrica de Chocolate' (Charlie and the Chocolate Factory) consegue ser ainda mais sinistra e bizarra que o primeiro filme, lançado em 1971. Baseado no livro de Roald Dahl, a história narra um concurso feito pelo excêntrico dono da maior fábrica de chocolates do mundo. Ele espalha 5 'golden tickets' (os 'bilhetes dourados') em suas barras, dando a oportunidade de que 5 crianças conheçam o interior de sua famosa fábrica, fechada há 15 anos sem que ninguém visse alguém saindo ou entrando de lá.

Diferente da 'bruxa Griselda' de João e Maria, Willy Wonka, o dono da fábrica, não espera atrair as crianças para comê-las, mesmo porque, 'pessoas não tem um gosto bom', e, também, 'o canbalismo é mal visto em nossa sociedade'. O apego por crianças, porém, parece ser o mesmo entre ele e a bruxa. Estrelado por Johnny Depp, (Piratas do Caribe, Ed Wood, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, Edward Mãos de Tesoura), o novo Willy Wonka é ainda mais estranho, mais engraçado, mais esqusito e mais dark. Vindo da direção de Tim Burton (Edward Mãos de Tesoura, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça), não se esperaria por algo diferente.

Pretendendo ser ainda mais fiel à obra de Roald Dahl, cenas que haviam sido modificadas, estão aqui como no livro; como a da Veruca Salt: nada de gansos e ovos de chocolate, como na adaptação passada, e sim fofos esquilos abridores de nozes. A famigerada cena das "bolhas" que foi criada no filme antigo também não existe. O início, com a apresentação dos personagens e até mesmo alguns causos sobre Willy Wonka contados pelo avô de Charlie estão idênticos ao livro. Burton soube dar um ar um pouco mais realista a essa nova versão. Digo realista porque, se havia algo mágico no antigo filme, era justamente o fato de Willy Wonka ser excêntrico porque era. Ponto. Aqui, porém, através de flash-backs da personagem, sabemos um pouco mais de seu passado e de seu pai, um dentista interpretado por Chistopher Lee (se de peruca branca ele metia medo como o mago Saruman de O Senhor dos Anéis, imagine com uma broca na mão...), o que acaba justificando suas atidudes. "Doce não tem que ter algum sentido, é por isso que é doce".

Aos poucos, os vencedores são conhecidos: o guloso Augustus Gloop (Philip Wiegratz), a ambiciosa e "mascadora de chicletes" Violet Beauregarde (Annasophia Robb), a esnobe mimada Veruca Salt (Julia Winter) e o metido a sabe tudo e viciado em televisão Mike Teavee (Jordan Fry) além de Charlie Bucket (Freddie Highmore, de Em Busca da Terra do Nunca), um menino pobre que acha o último bilhete.

Apesar de ter seu nome citado no título, o filme, decididamente, está menos centrado em Charlie e mais na figura de Wonka, o qual Depp soube fazer com maestria. Acalmem-se, porém, os fãns da antiga obra. 'Nunca, nunca se duvide daquilo de que ninguém tem certeza'. Com um ar arrogante e um jeito prepotente de quem decididamente não suporta crianças e não entende nada de valores familiares, Depp mostrou porque é considerado um dos melhores atores da atualidade. Sorriso psicopata sempre no rosto, é incrível como Depp faz trejeitos e caretas chamativos sem exagerar demais, exibindo expressões que traduzem qualquer sentimento. Sua atuação chega a ofuscar as demais em diversos momentos do filme. Extravagante, perde um pouco da magia de Gene Wilder, o antigo sr. Wonka, mas consegue algo ainda melhor: reforçar a lição de moral de como certos pais educam seus filhos, sendo ele mesmo um exemplo vivo.

Essa não é a primeira vez que Burton e Depp trabalham juntos. Desde Edward Mãos de Tesoura, passando por A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, Ed Wood, A Fantástica Fábrica de Chocolates e o próximo em vista, Noiva Defunta, ambos já deixaram claro que sabem o que fazem. A reconstrução da fábrica nas mãos de Burton e com a ajuda da tecnologia de hoje conseguiu ser ainda mais fabulosa. Para o rio e a cachoeira foram usados mais de 760 mil litros de chocolate líquido. Os Oompas-Loompas, anõeszinhos da Oompalândia, foram interpretados por um único ator, Deep Roy (Peixe Grande, Planeta dos Macacos), que fez as danças o número de vezes equivalente à quantidade de Oompas-Loompas que você vir na tela. Com a voz de Danny Elfman, que também fez a trilha sonora do filme, as canções não contêm o "Oompa Loompa, doompadee doo, we have a perfect puzzle for you", mas prometem ser divertidas. A casa de Charlie, totalmente disforme, aparenta ter sua planta concebida por um cenógrafo de filme expressionista alemão. O que poderia ter ficado artificial e menos encantador, ficou ainda mais deslumbrante e chamativo.

Freddie Highmore, escolhido pelo próprio Depp, depois de ter ficado impressionado com a sua atuação em "Em Busca da Terra do Nunca", passa um jeito mais meigo e sincero que Peter Ostrum, o antigo Charlie. As outras crianças também ficaram ainda mais caricaturadas que as antigas. Violet, por exemplo, que no livro original é considerada mal criada apenas porque fica mascando chiclete sem parar, aqui tem como maior defeito a mania estadunidense de só querer vencer, chamando todo mundo de perdedor. E Mike TV, o menino viciado em televisão, é também viciado em vídeo games e violência.

O filme é algo que se paga para ver, mesmo só havendo cópias dubladas; afinal, 'Temos tanto tempo e tão pouco para fazer'. Algumas referências estritamente adultas, como 'Psicose', 'Edward Mãos de Tesoura' e '2001 Odisséia no Espaço' (com a qual Burton reconstrói a Sala de Tv de forma quase idêntica) arrancam boas gargalhadas dos tios, enquanto as crianças olham sem entender. Como disse, porém, vale a pena. 'Chocolate tem a ver com a liberação de endorfina e deixa as pessoas mais felizes'; sejam elas de que idade forem'. Há, ainda, um final surpreendente feito por Burton, diferente do outro filme. Não adianta perguntar, porque eu não vou responder. 'Desculpe, perguntas somente no fim da sessão'.

Wednesday, July 20, 2005

Enquanto isso, no lustre do castelo...


"...Depois tive a impressão de estar perdendo todo o meu sangue. Essa sensação durou horas. Não podia mais andar, nem falar. Cheguei sem perceber ate a sala de cinema do Sound. Fiquei cinco horas numa poltrona a sentir que estava perdendo todo o sangue."








21:06, aproximadamente. Sexta-feira. Sophia começa a se apressar quando a amiga Lucy liga avisando que vai passar para pegá-la. O plano era ir para a Praça Universitária assistir a um show do Los Hermanos e, depois, para uma boate terminar, ou melhor, começar a noite.
No meio no caminho, ambas mudam de idéia e decidem ir direto para a boate. "Essa praça vai tá cheia de gente grudando em nós, essas coisas de graça não prestam", fala Sophia para a amiga. Antes ainda de chegar à boate, elas passam em um posto para tomar um Smirnoff ICE e comprar cigarros. Na empolgação, compram 4 bebidas e escondem na bolsa de Sophia, para poder entrar na boate com elas.
21:37. A boate ainda está vazia, mas elas decidem entrar mesmo assim. Sentam, e cada uma tira seu maço de cigarro e coloca na mesa. Marlboro Light para Lucy e Vermelho para Sophia. Ambas acendem um cigarro. Apenas o primeiro dos 20 que serão consumidos na noite. Não demora muito, porém, para começar a chegar toda a galera. Um a um, eles param na mesa para cumprimentá-las e seguem para sentar em outra mesa. Quando o último chega, Sophia dá um chute de leve em Lucy por debaixo da mesa e ela retribui um olhar de quem entendeu. Sophia e Augusto já tiveram um caso ainda mal resolvido.
Augusto se aproxima da mesa e abre a boca. Dentro, um minúsculo pedacinho de papel cortado em forma de quadrado. Lucy até se arrepia. "Ain, que delícia! Onde você arrumou?", pergunta quase saltanto da cadeira. "O namorado do Mateus tem". "Você tomou metade?". "Não, um inteiro". Augusto dá uma saída rápida e não demora muito para que Mateus e Jader, seu namorado, cheguem. Mateus abre a boca e também está com um igual. Pelo visto, todos da turma tomara. Sophia olha tudo com um olhar curioso. Lucy já pergunta "Você tem com ácido aí ainda?" Quando ouve a resposta afirmativa de Jader, já abre a bolsa para pegar a grana. "Quanto?" "R$30" "Fechado."
Jader abre a carteira e tira outro minúsculo papelzinho igual e entrega para Lucy. Tudo muito discretamente. Quase imperceptível. Sophia olha para o lado e Lucy pergunta se ela quer dividir. Ela diz que não. Lucy parte a metade, coloca na boca e guarda a outra na carteira. Seus olhos brilham de emoção.
Enquanto isso, Sophia toma seus 2 Smirnoffs que estavam na bolsa. Os amigos as chamam para sentar com eles. Na mesa, Lucy, Sophia, Mateus, Jader, Augusto, Felipe, e mais 2 amigos dos amigos que elas não conhecem. Todos estão bebendo cerveja e fumando (sem excessão), exceto por Lucy e Sophia que ainda desfrutam seu Smirnoff. Lucy começa a cutucar a amiga, falando que Augusto a está olhando. Sophia finge não perceber.
Ninguém entende quando Sophia levanta e sai correndo pela boate. Augusto faz uma cara de que não entendeu para Lucy e ela sussura que Jean havia chegado. Augusto apenas fala um 'ah' desanimado.
Jean é o melhor amigo de Sophia. Ela o busca e o leva para que ele cumprimente o resto do pessoal. "Tá todo mundo frito de ácido!". "Sério? Até a Lucy?". "Arram, até ela! Ela tomou metade! O Augusto tomou um inteiro!". "Putz...!"
Sophia decide ficar sentada com Jean, Jorge, Eduardo e Pedro, amigos de Jean que chegaram com ele. A música começa a bombar, a boate a ferver de gente. Sophia pede um whisky com água de coco. Na mesa, mais 4 cartelas de cigarro além da sua.
Não demora muito para os amigos descerem e se juntarem a ela. Lucy dança de olhos fechados, como em outra dimensão. Augusto conversa com os amigos que riem absurdamente de qualquer coisa. Lucy olha para a amiga e grita: "Cara, você tá derretendo!". Sophia olha para Jean e ambos começam a rir. Lucy fica furiosa e diz que estão cortando a onda dela.
Uma cerveja. Mais uma. Outra. E outra. Lucy pára de beber, mas Sophia continua. Lucy não pára de dançar sozinha, de olhos fechados; enquanto Sophia dança colada aos amigos de Jean. Fernando, outro amigo seu, chega na festa e a abraça por trás, ela vira e o beija.
A festa está apenas começando. Sophia já está completamente bêbada quando sai distribuindo selinhos pela boate. Quando vê Augusto sentado com os amigos, ela chega por trás dele, vira a sua cabeça e o beija. Todos olham sem entender nada. Lucy olha para a amiga e começa a rir. Augusto diz que precisa ir ao banheiro e sai pedindo cigarro para todo mundo da boate. Sophia gruda em Felipe e lhe dá diversos carinhosos selinhos. Ele diz que precisam resgatar Augusto porque, no estado em que ele está, jamais conseguirá voltar sozinho. Todos disparam a rir. Sophia ri escandalosamente, chega a chorar. Todos estão completamente passados, ninguém mais sabe o que está falando ou fazendo.
Sophia levanta e corre até Jean. "Esqueci de te contar, eu fiquei com a Amanda!". Jean arregala os olhos e apenas fala:"Ah, esse povo pivô...". Lucy aparece e abre a boca para Sophia. Lá está mais um daquele papelzinho quadradinho. "Você tomou a outra metade toda?". "Não, dividi com o Augusto..."
03:57. Os amigos de Sophia começam a se preparar para ir embora. Ela não desgruda de Augusto um só momento. Nem ela e muito menos ele parecem saber o que estão fazendo. Ele vira para ela e pergunta se pode beijar a Lucy junto. Ela diz que sim, meio incerta. Os 3 se juntam e se beijam no meio da pista de dança. Augusto se despede e sai, enquanto Sophia corre até o banheiro, seguida por Lucy.
"Nossa, Sophia, ele é bom mesmo!", diz Lucy de dentro do box à amiga que, sentada no chão, chora descontroladamente. Talvez, efeito do álcool; talvez, efeito do Augusto com a amiga. Lucy se desespera ao vê-la naquele estado e tenta acalmá-la, quando duas meninas entram no banheiro e começam a animar Sophia. São de Curitiba e estavam aqui para o Congresso da UNE que estava ocorrendo na Praça Universitária.
Depois de se recuperar um pouco, Sophia e as outras meninas saem do banheiro e elas dão outra cerveja para Sophia. Lucy tenta impedir, mas não consegue. Sophia abaixa a cabeça no balcão e recomeça a chorar, para o desespero de Lucy. A boate está se esvaziando e o balconista pergunta se as duas já fecharam a conta, porque estão fechando. Sophia diz para Jean que vai embora com ele e ele diz para ela falar com Pedro, pois está com ele. Sophia fala com Pedro e ele diz que vão sair para outra boate ainda. Sophia se reanima e Lucy a olha com cara de desapontamento. "Tá, tudo bem, a gente vai Sophia..."
04:02. A outra boate ainda está cheia. Sophia chega e deita no sofá. Está começando a passar mal. Lucy corre pra pista pra aproveitar enquanto estava batendo 'onda'. Algum tempo mais tarde, Sophia se levanta e entra para uma sala reservada da boate, onde deita. Realmente, está passando muito mal. Enquanto isso, Lucy dança compulsivamente na pista. O efeito é tanto, que ela sequer percebe os amigos (e, junto, a carona) ir embora. Sophia acorda. Vomita. Deita. Levanta. Vomita de novo. A sala está uma completa escuridão e ela ouve uns gemidos e estalos em algum canto.
Enquanto isso, um menino chega em Lucy e pergunta se ela quer beijar uma amiga dele. Ela pede desculpas. "Sou só simpatizante...". Ele retruca: "Ai, não acredito, eu também!". E eles começam a se beijar. Ele falou: "Nossa, meu amigo nem vai acreditar, se eu o chamar você beija ele também?". E Lucy: "Uai...". O amigo chega e ela o beija também. E ficaram revezando. "Agora é a minha vez". "Agora é minha". As pessoas já estavam indo embora quando os garotos se despediram de Lucy.
05:01. Lucy liga no celular de Sophia. "Onde você tá?". Sophia ouve a voz da amiga e corre pra fora da sala. "Vamos embora, pelo amor de Deus." Lucy diz: "Calma, você não quer tentar vomitar?". "Já vomitei, droga. Cadê o Jean?". "E eu sei lá de Jean", responde Lucy. "Quê???"
05:13. As duas pagam a conta e saem a pé, sem saber ao certo como vão embora. Ainda está escuro. Decidem ir para o ponto ver se pegam um ônibus. Pegam um, descem na Praça Cívica, depois pegam outro. Lucy acompanha Sophia até em casa. Antes de entrar, Sophia ouve Lucy perguntar: "E então, amanhã tem mais, né?". "Sophia nem se vira para responder."

Sunday, May 01, 2005

Siga o Coelho Branco.


'Se eu tivesse um mundo só meu, ele seria feito só de absurdos. Nada seria o que é, pois tudo seria o que não é...e, ao contrário, o que é não seria...e o que não seria, seria. Não é?'









Somente agora consegui, finalmente, assistir ao filme Menina de Ouro, portanto, já fui carregada de uma carga externa opinativa de várias pessoas, mas que se resumem em uma frase: Choraram muito. Fui preparada psicologicamente para cenas melancólicas, trágicas, dramáticas, com uma trilha sonora intensa e carregada. Felizmente, não foi o que encontrei.
Afinal: "Qual o preço do seu sonho?" Foi a primeira frase em que pensei após ter reorganizado minhas idéias (e ter parado de chorar...). O sonho de nossa menina de ouro custou uma vida.
Certa vez, li o relato de uma mulher em que ela contava que, quando mais nova, seu sonho era ser bailarina. Apesar de já ter ultrapassado a idade considerada ideal para iniciar a dança, ela procurou a melhor escola de balé da cidade e fez o teste. O professor que a avaliava, ao final da apresentação, lhe disse: Minha filha, você jamais será uma bailarina na vida. Decepcionada, ela voltou para casa, chorou muito e viu que, realmente, ele tinha razão. Ela já não era mais tão nova e não era muito boa; simplesmente, decidiu largar tudo. Muito tempo depois, ela, já adulta e casada, reencontrou esse professor e contou do teste que ela havia feito e que ele tinha sido o responsável por ela ter desistido do maior sonho de sua vida. Ele apenas lhe falou: Se você fosse uma bailarina de verdade, jamais teria dado ouvido ao que eu disse.
É exatamente essa a temática trabalhada no filme Menina de Ouro; ao pedir que Eddie a treinasse para ser boxeadora, Maggie simplesmente o ouviu dizer que não treinava garotas. Ainda em uma segunda tentativa, ele disse que ela era muito velha, que o treinamento demorava muito, que jamais daria certo. Ela retrucou: "Então terei que trabalhar mais duro".
Eddie, hoje, representa nosso próprio mundo Pós-moderno. Após as promessas de evolução, de inovação, de conquistas e vitórias que o Iluminismo pregou, vemos que o século XX é o "Século da desilusão". Ao invés da tão sonhada tecnologia como forma de ampliar a qualidade de vida a toda a espécie, vemos que ela foi usada não para o progresso, mas para a ganância. A tecnologia nuclear que resultou em Hiroshima e Nagasaki; os aviões como uma inovação dos meios de transporte resultaram em caças aéreos e kamikases; o antropocentrismo e a valorização do homem levou ao individualismo e nacionalismo extremos que resultaram em intolerância e em 2 grandes Guerras Mundias.
Onde está Deus então? Deus está morto, assinado Nietzsche. Criemos então nossos próprios deuses, dizemos nós. Hoje, o homem pós-moderno é o cultuador da ciência e a torna praticamente incontestável; ele é criador e destruidor de seus próprios mitos e ídolos; ele se apega às coisas que possui, em uma vã tentativa de tentar preencher as lacunas deixadas pela ausência de Deus como verdade e resposta para todas as coisas. Nós somos seres ambíguos, confusos, não temos mais a certeza do porque estamos aqui ou para onde vamos depois. A volta dos valores antropocêntricos, da mesma forma que a religião, não trouxe as respostas procuradas da forma como esperávamos. Isso é claramente refletido na literatura; a característica principal dos autores pós-modernos é a perda da onisciência. Aquela certeza demonstrada pelo narrador ao escrever, aquela segurança que sentimos quando lemos livros mais antigos, no que tange às respostas que a personagem procura, não é mais passada de uma forma clara e objetiva. A personagem e nós mesmos é que vamos descobrindo juntos, ao longo de todo o livro entremeado de conflitos, dúvidas, perguntas e questionamentos, como podemos procurar as respostas. Na maioria das vezes, eles sequer são dadas, apenas aponta-se um caminho como direcionamento.
Uma forma de tentar amenizar essas dúvidas é como a medicina hoje tenta dar respostas para tudo. Ela procura catalogar e diagnosticar todas as doenças e neuroses oriundas da própria Pós-modernidade. A banalização de se tratar qualquer tristeza como depressão, qualquer euforia como Síndrome do Pânico são apenas exemplos de como o homem ainda possui esperanças de que a ciência possa resolver todos os problemas do mundo.
Quando assistimos a filmes como Menina de Ouro, começamos a ver uma crítica que vai bem direcionada a esse modo de vida passivo que temos hoje. Muitos de nós temos sonhos, vontades, desejos, mas preferimos nos acomodar em nosso conforto proporcionado pela tão avançada indústria tecnológica e, infelizmente, nos contentamos com o que já obtemos. O boxe, que é usado como pano de fundo da história atuada e dirigida por Clint Eastwood, representa a magia de se lutar além dos limites. Essa também é a magia da vida. Nosso mundo carece de ideologias, carece de sonhos, de esperanças. Tudo está vinculado, de alguma forma, às coisas materias, mas todos sabemos que elas são finitas e estão restritas à nossa vida terrena. Sonho é a idealização de um objetivo e a vida deveria ser nada mais que a procura e a luta por ele. Nossa visão, porém, se tornou excessivamente limitada. O consumismo exacerbado na forma como ele nos é proposto mostra o hoje como o essencial; a utilização do Carpe Diem como jogada publicitária. Compre compre compre. Aproveite o dia e, claro, seu dinheiro.
Uma outra questão trabalhada excepcionalmente bem no filme foi a desteologização das problemáticas. Podemos notar que, à sequência da conversa de Eddie com o padre sobre o pedido de Maggie de que Eddie aliviasse seu sofrimento, depois de ter sofrido um grave acidente na última luta e ter perdido todos os movimentos do corpo além de ter tido uma perna amputada, segue a conversa de Eddie ( o próprio Clint Eastwood) com Frank, brilhantemente atuado por Morgan Freeman. O padre nunca dá respostas satisfatórias sobre os conflitos de Eddie; ele procura desesperadamente por um sentido à sua vida. Sua filha o ignora e devolve suas cartas sem sequer abri-las, ele não consegue compreender determinadas passagens bíblicas, não sabe o que fazer com Maggie...O padre, porém, se resume a dizer que é um pecado e que ele afundaria completamente se cedesse ao pedido de Maggie sobre a eutanásia, que ele deixasse isso nas mãos de Deus. Eddie lhe fala: "Ela, porém, está pedindo a mim e não a Ele". Pela primeira vez, vemos a pose de durão de Eddie se desmanchar em lágrimas.
Logo depois, Eddie está em seu ginásio de boxe conversando com Frankie, que é um ex-lutador de boxe e que perdeu um olho na sua última luta motivo pelo qual Eddie não se perdoa. Frankie, muito mais do que um mero zelador do ginásio, representa a própria personificação da consciência de Eddie. Frankie foi rápido e direto com as palavras. Um fato interessante é que, nessa cena, Eddie sequer chega a comentar sobre o que o afligia tanto. Frankie diz que visitara Maggie de manhã e sua fala se resume em uma subtração da lei para que seja feita alguma justiça, ou seja, a "consciência" de Eddie diz que ele deve ir além dos limites de crenças e ensinamentos pessoais e acabar com todo o sofrimento da garota.
A princípio, ficamos meio chocados com essa possibilidade de Eddie efetuar uma eutanásia. A dúvida gira em torno de abrir mão da única pessoa que faz sentido na vida dele ou deixá-la existir de forma egoísta e contra a própria vontade dela; afinal, há a imposição de uma lei que vai além do direito que o ser humano possui sobre sua própria vida. É muito fácil dizer que, uma menina que lutou a vida inteira pelo seu sonho, agora vai desistir da própria vida, que tipo de lutadora é essa? É fácil falar isso quando estamos sadios, quando caminhamos, rimos, andamos, comemos, respiramos com nossos narizes...jamais poderemos entender o que se passou na cabeça de Maggie naquele momento, se a analisarmos sob nosso próprio ponto de vista. "Para ver muita coisa, é preciso despregar os olhos de si mesmo", já dizia o filósofo Nietzsche. Precisamos avaliar a situação sob a perspectiva e o olhar de Maggie para, somente assim, sermos capazes de entender suas razões. Eu disse entender, não necessariamente, aceitar.
Esse tem isso um dos maiores motivos de intolerância que se tem hoje, em todos os sentidos. Seja religiosa, política, social, étnica, cultural. Não somos capazes de perceber que, para vermos o que há do outro lado do espelho, precisamos poli-lo e, fazendo isso, estaremos ofuscando nossa própria imagem, citando um exemplo de Jostein Gaarder, em seu livro Através do espelho. O individualismo e o egocentrismo que norteiam nossa civilização ocidental hoje dificultam que consigamos perceber o outro com suas razões e motivos.
Maggie queria eternizar aquele coro MO CUISHLE que ainda ressoava em sua mente, expressão essa atribuída por Eddie à garota e que acabou se tornando uma espécie de nome artístico que as pessoas procunciamvae clamavam a cada vitória. Seu sofrimento era tamanho deitada naquela cama de hospital, completamente imovél e já sem uma perna, que ela sentia que esse coro ia ser diluído por tamanha tristeza e angústia. Ela nasceu lutando, como ela mesmo explica que seu pai lhe contara de como seu parto fora difícil, e queria morrer da mesma forma. Muitos consideram um suicídio uma forma de covardia. Tente suicidar pra ver se um covarde seria capaz de fazê-lo. Não nos interessa mais o que haverá depois que morrermos, mas parece que não pode ser pior do que está.
Maggie lutou por seu sonho até o fim; deu o máximo de si e, certamente, partiria com a certeza de um dever cumprido, de uma chance não desperdiçada. Chance? Será que ela teve uma chance ou será que nós as criamos? Não foi chance, mas sim, persistência. Chance é algo do acaso e a garota de ouro não recebeu nada por acaso. Tudo foi fruto de suor, determinação, esperança, sonho, ideologia...todos nós podemos ver o coelho branco. Cabe a nós segui-lo ou não. Para se chegar ao País das Maravilhas, a caminhada é longa, árdua. Às vezes, o coelho é mais rápido e você o perde de vista. Muitos se cansam e preferem desistir e voltar às suas casas, ofegantes demais que estão para serem capazes de prosseguir. Superar essa caminhada é o pré-requisito para se conhecer o mundo fantástico e desfrutar dele.
Alguns não alcançam o tão almejado objetivo. Nossa protagonista não ganhou um milhão de dólares. O título original do filme, porém, é "Million dollar baby". Isso sim é de cair o queixo. Projetamos todas as nossas espectativas em algo, ou melhor, em conseguir algo e só nos satisfazemos quando o alcançamos. Nós, porém, não vivemos para sempre. Que injustiça é, então, tantas pessoas morrerem no meio dessa perseguição por seus coelhos brancos e sequer terem tido a oportunidade de vislumbrar o País das Maravilhas! Aí é que está a questão mais bela do filme! Essa nossa corrida por seguirmos o coelho branco é que é a nossa vida! Não podemos acreditar que o mérito se encontra apenas com aqueles que realmente conseguem penetrar o mundo encantado e alcançar o que almejavam...o mérito está em sairmos de nossa passividade, sairmos de nosso total comodismo e nos dispormos a ir atrás de nosso coelho branco. Nossa vida, de fato, não irá começar a partir do momento que conquistarmos nosso objetivo...nossa vida começa quando nos levantamos e pensamos: Sim, eu quero.
O prestígio está no caminhar, muito mais do que no conquistar e é isso que nos torna heróis. A luta e a bravura mais até que a vitória; a iniciativa e a coragem, mais até que a concretização. É exatamente por isso que Maggie é a menina de um milhão de dólares. Não que ela tenha alcançado o prêmio, ela vislumbrou apenas os jardins do tão sonhado País das Maravilhas, mas, mesmo assim, ela tem conciência do quão longe chegou e não quer que nada destrua a imagem que ela tem, em sua mente, do mais sublime e encantador jardim que ela já presenciara; ela não quer deixar de ouvir o canto Mo Cuishle (as lágrimas que saem de seu rosto quando Eddie lhe diz o significado dessa expressão são indescritíveis; talvez, uma expressão de sinceridade, gratidão, ternura, carinho, admiração e realização mais harmônicas que já presenciei...o que nem seria necessário para uma expressão tão completa: "Minha querida, meu sangue"...). Ela sente-se realizada e feliz, mesmo não tendo ultrapassado as entradas do País das Maravilhas. E ela está certa, pois, como diz Nietzsche: "Felicidade é um caminho e não um destino".

Wednesday, April 20, 2005

A Vila - Sinais da Cultura do Medo.


"(...)E, ao mesmo tempo, a consciência de estar em guerra, e, portanto, em perigo, faz parecer natural a entrega de todo poder a uma pequena casta. (...) Não importa que, de fato, haja uma guerra e, como não é possível uma vitória decisiva, pouco importa que a guerra vá bem ou mal. O que importa é que possa existir o estado de guerra." [George Orwell, 1984]



Alguns dos motivos que nos fazem ter uma percepção diferenciada sobre o filme A Vila são bem óbvios. Primeiramente, pelo próprio diretor, produtor e escritor do filme, M. Night Shyamalan. Não se precisa conhecer muito sobre esse diretor para se ter uma "leve" impressão de que ele possui um jeito diferente de trabalhar com o que quer passar. Isso ficou bem claro em Sinais, seu outro filme de grande repercussão; um filme fantástico em que Shyamalan trabalha sobre um assunto extremamente sutil, mas de uma forma singular. Infelizmente, não foi o que os comentários do "pós-sessão" confirmaram. Houve muitas críticas, principalmente devido à quebra de espectativa. Só observando, não era um filme de ficção científica, para os mais exaltados. Os que foram ao cinema com a intenção de ver Mel Gibson dizendo algo semelhante a: "Que a força esteja com você!", certamente se decepcionaram. É brilhante a forma como o diretor consegue desviar a atenção do público, deixando apenas os mais e mais e mais atentos perceberem o que ele realmente quis passar. Os E.T.s eram o que menos importavam no filme. Sim, se você achou que não sentiu medo suficiente, que bom que não sentiu mesmo, porque não era para ter sentido, ao menos não na intensidade em que as pessoas estavam esperando. As sutis coincidências, as mesmas que levaram a personagem de Mel Gibson a perder a fé e depois recuperá-la, acabaram por passarem despercebidas pelos espectadores que estavam esperando se veriam ou não os E.Ts, ou se a Terra seria destruída ou não.

E.T.s à parte, voltemos ao filme A Vila. Aqui, cena se repetiu. A expectativa criada no trailer em torno de um filme assustador, horripilante, aterrorizante, fez as pessoas irem mais uma vez ao cinema com a clara intenção de se "arrepiarem de medo". Realmente, algumas cenas, se não chegam a passar medo, provocam, de certa forma, um "suave" contorcer no estômago, ou seja lá onde for que sintamos essas coisas. A questão é que, mais uma vez, o autor não estava querendo nos mostrar se os seres da floresta existiram ou não, se destruiriam a Vila ou não e, muito menos, se aconteceria uma guerra entre "os da vila" e "os da floresta". E foi aí que os espectadores se perderam.

O filme abre uma abordagem tão ampla, que nos dá margem para discuti-lo e relacioná-lo com vários assuntos atuais. A própria cultura do medo é um deles. A idéia de que o mundo está parecendo muito mais violento do que ele supostamente seria é muito bem trabalhada no filme. A mídia faz-nos seu trabalho de forma exemplar nesse campo; a exposição crua e aberta com que os horrores do mundo nos chegam hoje parece-nos algo espantoso. Diria até apavorante. Os norte-americanos que o digam; a cultura do medo criada por Bush é uma das mais bem maquiavelicamente calculadas que há. Cria-se uma idéia de total terror entre as pessoas, uma situação de verdadeiro pânico a fim de, com isso, manter-se no poder. Algo como: "Vejam os horrores a sua volta. Eu estou fazendo algo para acabar com esse terror que coloca suas vidas em risco. (Logo, votem em mim.)". É exatamente a crítica perceptível em A Vila (e mostrado de uma forma até clara, quando mostra-se a cena das aulas das crianças, que detêm um verdadeiro pavor por um mundo que sequer conhecem. Quando o "professor" começa a falar e a explicar a elas uma determinada situação que ocorrera no local, a partir daí entendemos claramente o motivo do tamanho pavor que elas sentem do desconhecido. Os seres da floresta e a cidade lhes são retratadas de forma horrenda, se assemelhando ao verdadeiro inferno, onde demônios espreitam à procura de suas vítimas...). Muito mais por acreditarem que aquele lugar seja, de fato, um lugar melhor, aquelas pessoas estão alí por medo; medo da idéia de mundo além da floresta que lhes é passada. E esse estado de terror foi feito por pessoas próximas, parentes; indivíduos em que, supostamente, teríamos confiança *SPOILER* (e que foram capazes de ir tão longe com a própria mentira, que chegaram ao ponto de se fantasiarem de seres da floresta para confirmar o mundo que criaram), o que diremos de governantes que detêm o poder... *SPOILER*

Aliada a essa idéia de cultura do medo, podemos perceber, no filme, uma crítica, sutil, bem sutil, ao pensamento de Rousseau quando ele diz que: "O homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe". Uma das coisas que nos faz sentir isso é quando a Ivy Walker (Bryce Dallas Howard), protagonizando uma moradora da vila que é cega, chega à cidade e encontra o policial. Ao escutá-lo, ela diz: "Sua voz transmite coisas boas. Não era isso que eu esperava encontrar." Mais uma vez, a forte crítica à cultura do medo. O pavor de Ivy era imenso, a ponto de ela, realmente, acreditar que nada que estivesse além dos limites da vila pudesse transmitir algo bom. E, ao fato de o policial ter sido "bom" para Ivy, é que percebemos a crítica ao pensamento de Rousseau; o poder de corrupção da sociedade não se ampliaria para todos que estivessem incluídos nela. E mais uma prova dessa mesma crítica foi que, Lucios Hunt (Joaquin Phoenix), um dos protagonistas, sofreu uma tentativa de homicídio onde? Na cidade? Não, na vila, o lugar em que, supostamente, por todos estarem imunes do contato com a civilização e seus males, estariam imunes, também, da perversidade e dos atos bárbaros. Indepentente de Noah Percy (Adrien Brody), o suposto realizador da tentativa de homicídio, ter problemas mentais ou não, o filme deixou bem claro que o verdadeiro mal está enraizado no ser humano, está entranhado na sua carne desde o seu nascimento. Não importa pra onde ele vá, levará consigo esse instinto que não é característico de onde vivemos, mas de toda a espécie.

Mesmo o grupo de amigos que criou toda essa situação que prende as pessoas à vila não são melhores do que aqueles que praticam atos como os de Noah ou mesmo do que aqueles dos quais eles estavam fugindo. Se eles tiveram seus motivos para fazerem o que fizeram, o Noah os teve da mesma maneira. A forma de se expressar é que os diferencia. E será que tentar tirar a vida de um indivíduo é menos cruel do que mantê-lo vivo em uma mentira? Talvez, empatem em patamares de barbárie. Afinal, não nos esqueçamos de que toda a artimanha formulada em torno da idéia da vila matou tanto ou mais pessoas que os entes próximos que o mesmo grupo de amigos perdera devido à criminalidade das grandes cidades. A covardia em não ser capaz de atravessar o bosque para buscar remédios, a crença infantil em uma promessa de que jamais regressariam, tudo isso é retratado logo na primeira cena do filme com o enterro do pequeno Nicholson. Todos lamentam a morte dele, mas é apenas isso que fazem. Lamentam. Grande mundo de sonhos esse em que vivem.

Um outro fato bem interessante que podemos abstrair do filme é a covardia do homem Pós-moderno, a tentativa de criar uma válvula de escape do mundo ao qual ele pertence. Todos alí, de certa forma, buscavam a felicidade. Aliás, ela é almejada por todos os seres humanos, de todas as épocas. A diferença está na forma que se quer alcançá-la. E essa, definitivamente, foi a melhor crítica do filme. O homem, hoje, quer conquistar a felicidade, não indo de fato atrás dela, mas tentando se esquivar do sofrimento, para que ela possa ocupar o que seria seu devido lugar; como se o sofrimento fosse o que impedisse o ser humano de ser feliz. Podemos perceber como o diretor trabalhou isso de forma fantástica! O sofrimento acompanhou o grupo de amigos, da mesma forma que os males inatos dentro deles. Por mais que a idéia de paraíso estivesse contida na vila, o sofrimento persistiu; a felicidade não foi alcançada pela tentativa de fuga do sofrimento.

Temos, porém, uma nítida sensação de felicidade ao filnal do filme. Por quê? Vejamos. A felicidade chega com o regresso de Ivy. E o que esse regresso representaria? Não a fuga do sofrimento, mas sim, a superação desse. E isso sim, é de arrepiar no filme. Felicidade e sofrimento seriam apenas duas faces de uma mesma moeda; estão contidas em um único contexto. Não foi a covardia do grupo de amigos, ao tentar fugir so sofrimento, que alcançou a felicidade. Pelo contrário. Essa foi alcançada pela determinação e coragem de Ivy, pela perseverança e pela esperança que guiava seus passos na floresta. A felicidade foi conquistada pelo enfrentar, não pelo fugir. Não é se fugindo do tormento que se é feliz. Se fosse assim, porque todos simplesmente não suicidariam? Seria uma forma bem prática de, fugindo da dor e da angústia, se a felicidade fosse assim obtida, de possuí-la definitivamente. Não...a felicidade é uma conseqüência; um prêmio pela nossa força de vontade, pela nossa garra por mais uma batalha vencida. Como ser feliz sem ter sofrimento? Eis o encanto de Shyamalan. Estão alí representados, nas personagens, esteriótipos sociais que vivem hoje; e o filme deixa bem claro qual deles vence.

A vida é para ser vivida de forma profunda e encantadoramente intensa. O sofrimento faz parte disso. É na superação dele que atingimos um sentimento tão belo quanto a felicidade. E outra: o verdadeiro cego não é aquele que tem sua visão comprometida. Ivy via o mundo muito mais do que praticamente todos na vila. Nós só vemos o que queremos ver e só acreditamos no que queremos acreditar. Não precisamos de olhos abertos para ver o mundo; precisamos, sim, de mentes abertas para compreendê-lo. A mente é "o olho que tudo vê". Para isso, ela precisa ser treinada; e não há treinamento melhor do que o próprio uso. Quando passarmos a ver o mundo com os olhos da mente, é que o veremos de fato, pois, a partir de então, muito mais do que simplesmente enxergar, nós o sentiremos...e, enfim, entenderemos que o mundo não é perfeito, não foi e dificilmente o será; mas a arte de viver é exatamente essa: tirar-se o maior bem do maior mal, já dizia Machado de Assis.